(Sócrates)Dizer não é falar. A diferença não é sutil. O abismo de significado iguala-se à qualquer antagonismo. Quantas vezes falei o que não queria dizer e quantas outras disse sem falar... Fácil é falar sobre qualquer coisa, qualquer assunto vão ou inútil, se arriscando por caminhos desconhecidos que estão fora de nós, aonde a euforia enlouqueceu e parece estar dançando no meio da multidão embriagada. Todo oposto é dizer. Abrir o coração e deixá-lo escolher as palavras ou os gestos cuidadosamente sempre com um sentimento de quem quer acertar e tem medo do erro, ou ainda deixar todo o sentimento vazar pelo corpo e ainda pelo olhar. É vasculhar o melhor de si aonde quer que esteja dentro de nós, mesmo que perdido, mesmo que sem notícias e mesmo sem encontrar, expressá-lo de repente de forma idealizada com um nobre fim. Dizer é um quase sofrer, por isso normalmente dói, dizer é ter medo de não ser compreendido, dizer é conviver com a expressão pura em si do que se é.
Fala-se mentiras, fala-se dos outros, fala-se da vida, fala-se de algum fato. Falar é praticamente um ato de independência da boca, da língua: seu momento de liberdade; expressão da leviandade. Daí que deve ter nascido a expressão “falou da boca pra fora” dizer da boca pra fora é impossível. Dizer é de uma profundidade tamanha. Tanto é que não há como dizer da vida, pois somente a própria é capaz de se explicar de tão complexa, de se viver a cada dia, de se sentir e fazer passar e experimentar as nuances de cada hora, de cada sentimento, de cada fato na pele de cada um de nós.
Não falo de mim. Eu só posso dizer. Num bate-papo, eu sou daquelas que sempre vai olhar para alguém e verbalizar: “diga”, e não “fale”. Portanto, entenda, que eu nunca te disse nada de ruim na verdade. Se de mim ouviu algo assim, eu não disse, falei. Falei.
Bianca Cardoso